O cacau e seus efeitos no organismo: uma abordagem nutricional e científica

 

A América Latina apresenta uma expressiva biodiversidade alimentar, sendo rica em alimentos tradicionais que vêm sendo amplamente estudados nas últimas décadas por suas propriedades funcionais e potenciais efeitos medicinais. Diversas revisões científicas nas áreas de etnobotânica, nutrição e fitoquímica destacam alimentos regionais que despertam o interesse da comunidade científica devido à presença de polifenóis, carotenoides, alcaloides, fibras funcionais e ácidos graxos bioativos.

Nesse contexto destaca-se o cacau (Theobroma cacao), um dos exemplos mais relevantes tanto por sua importância histórica e cultural quanto pela composição em compostos bioativos e seus efeitos em múltiplos sistemas do organismo.

Vamos conhecer um pouco mais os efeitos do cacau?

Origem e classificação botânica

Cacau é uma planta originária de regiões tropicais úmidas, sendo amplamente valorizado por sua importância nutricional e econômica. O fruto é a matéria-prima para a produção de chocolate e outros derivados.

Do ponto de vista botânico, o cacau apresenta três principais linhagens:

  • Forastero: é a mais cultivada no mundo, devido à sua resistência e alta produtividade.
  • Criollo: é mais raro e considerado de alta qualidade, destacando-se pelo sabor mais delicado.
  • Trinitario: um híbrido que combina características das duas linhagens anteriores.

Composição nutricional

As sementes do cacau, chamadas de amêndoas, constituem a parte mais valiosa do fruto e apresentam elevada densidade nutricional.

Entre seus principais componentes destacam-se os lipídios (cerca de 40%), responsáveis pela formação da manteiga de cacau. O cacau também é rico em minerais como potássio, magnésio, cálcio e fósforo.

Contém importantes compostos bioativos como os polifenóis, que possuem ação antioxidante, e as metilxantinas (como teobromina e cafeína), associadas a efeitos estimulantes.

Propriedades e benefícios à saúde

Devido à sua composição, o cacau é frequentemente classificado como um superalimento, apresentando efeitos positivos em diferentes sistemas do organismo.

  • Sistema cardiovascular: contribui para a melhora da circulação, redução da pressão arterial e diminuição dos triglicerídeos.
  • Sistema cerebral: pode favorecer a memória e a cognição, especialmente em idosos.

Em relação ao aspecto emocional, atua na modulação de neurotransmissores como serotonina e dopamina, promovendo sensação de bem-estar. Apresenta ação antimicrobiana, podendo inibir bactérias como Helicobacter pylori (afeta principalmente o estômago, podendo causar gastrite, úlceras e até câncer), e Pseudomonas aeruginosa (causa infecções diversas, especialmente em pessoas vulneráveis, sendo mais comum em ambientes hospitalares).

Processamento e formas de consumo

A forma de consumo do cacau é determinante para a preservação de suas propriedades. Recomenda-se o consumo de cacau cru ou chocolate amargo com, no mínimo, 70% de cacau.

Produtos como chocolate ao leite ou branco apresentam menor valor nutricional e maior teor de açúcar.

O processamento das amêndoas envolve etapas como fermentação, secagem, torrefação e moagem, resultando no líquor de cacau. Destaca-se o aproveitamento integral do fruto: a polpa pode ser utilizada em sucos e sorvetes, enquanto as cascas são empregadas na produção de chás e extratos ricos em antioxidantes.

Evidências científicas

Os efeitos do cacau variam de acordo com o tipo de estudo científico realizado. A redução de triglicerídeos é um dos efeitos mais consistentes, comprovado em estudos com humanos.

Já o potencial antioxidante é mais elevado no cacau cru e pode diminuir significativamente com a torrefação. A ação antimicrobiana e a proteção contra radicais livres são frequentemente observadas em estudos in vitro, sendo necessário mais estudos em humanos.

De modo geral, quanto menor o grau de processamento do cacau - especialmente em relação ao calor e à adição de açúcar, maior é a preservação dos flavonoides, principais responsáveis por seus benefícios cardiovasculares.

 Colaboração: Nathaniel Alves, graduando em Gestão Ambiental (USP/ESALQ, 2026)

Referências

  1. Salon du Chocolat et de la Pâtisserie - Paris & Lyon (2025). The benefits of cocoa - Acesso em 22 de março de 2026
  2. Research, Society and Development (2024). Cocoa (Theobroma cacao): An overview of current research on botanical, phytochemical and pharmacological aspects - Acesso em 22 de março de 2026
  3. Nutrients (2021). The Health Effects of Chocolate and Cocoa: A Systematic Review - Acesso em 22 de março de 2026