Entre o uso popular e a pesquisa: uma análise do chá das folhas de goiabeira

 


Ao longo das gerações, muitas plantas ganharam espaço no cuidado cotidiano da saúde e a goiabeira é uma delas. No Brasil e também em países como a Bolívia, suas folhas são tradicionalmente utilizadas em chás associados ao fortalecimento das defesas naturais do organismo. É comum recorrer a essa infusão para tentar aliviar o excesso de muco e melhorar o conforto respiratório — um uso especialmente mencionado entre fumantes.

 

Embora esses costumes estejam profundamente enraizados na sabedoria popular, as evidências científicas disponíveis ainda são limitadas. Isso abre espaço para refletir sobre a relação entre práticas tradicionais e aquilo que a pesquisa moderna já consegue confirmar.

O chá das folhas de Psidium guajava (goiabeira), frequentemente citado como coadjuvante na manutenção da imunidade e no alívio do catarro pulmonar, possui algum respaldo em estudos experimentais. No entanto, não há evidência clínica sólida que confirme esses efeitos de forma conclusiva em humanos.

O que há de evidência — e o que falta comprovar?

Evidências favoráveis

Atividades anti-inflamatória, antimicrobiana e antioxidante.
Extratos das folhas de goiabeira demonstraram efeitos anti-inflamatórios em estudos in vitro e em modelos animais. O extrato etanólico, por exemplo, reduziu a produção de NO (óxido nítrico) e PGE2 em macrófagos estimulados com LPS. Também existem estudos mostrando atividade antimicrobiana contra bactérias envolvidas em infecções intestinais e outros quadros infecciosos.

Em animais como camarões, extratos das folhas aumentaram parâmetros de imunidade inata, sugerindo um potencial efeito imunomodulador. Já artigos de divulgação costumam atribuir ao chá o “fortalecimento do sistema imunológico” por conter vitamina C e compostos fenólicos.

Possível efeito sobre vias respiratórias, muco e tosse.
Um estudo em cobaias observou que o extrato da folha de goiabeira reduziu a frequência de tosse induzida por aerosol de capsaicina. Em matérias de divulgação, o chá é frequentemente citado como auxiliar em “doenças respiratórias”, “soltura de muco” e alívio da tosse — embora esses relatos sejam majoritariamente populares.

Onde as evidências ainda são insuficientes

  • Apesar dos efeitos farmacológicos observados em modelos experimentais, há escassez de estudos clínicos robustos demonstrando que o chá reduza o catarro pulmonar especificamente em fumantes.

  • O uso para “elevação do sistema imunológico” em humanos baseia-se mais em tradição e extrapolação de estudos antioxidantes do que em ensaios clínicos que comprovem melhora de marcadores imunológicos ou diminuição de infecções.

  • Um estudo realizado em pacientes com COVID-19 leve avaliou o extrato de P. guajava, mas focou em marcadores inflamatórios — não em catarro, função pulmonar ou efeitos em fumantes.

  • Afirmações de que o chá “abre os pulmões” ou “solta muco” são comuns em matérias populares, mas não têm confirmação por meio de pesquisas clínicas revisadas por pares.

Conclusão

Com base no conhecimento atual, é possível afirmar que as folhas de goiabeira contêm compostos bioativos com propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas e antioxidantes, o que oferece plausibilidade farmacológica para alguns dos usos tradicionais. No entanto, declarar que o chá “eleva o sistema imunológico” ou “reduz o catarro pulmonar do fumante” vai além do que a ciência comprovou até o momento.

Trata-se portanto de um uso tradicional com alguma base experimental, que não substitui tratamentos médicos e deve ser adotado com cautela, especialmente por fumantes ou pessoas com doenças respiratórias.

O chá da folha da goiabeira usado como coadjuvante na manutenção e elevação do sistema imunológico e para reduzir o catarro pulmonar do fumante tem suporte mecanístico e experimental (in vitro e em animais) e suporte etnofarmacológico / uso tradicional, mas não tem evidência clínica direta (ensaios randomizados em humanos) demonstrando que o chá de folha de goiaba reduz objetivamente o catarro em fumantes.

Há ensaios clínicos humanos com P. guajava, porém com outras populações e desfechos (metabólicos, dor, inflamação em COVID-19), não com fumantes expectorantes.

O que seria necessário para comprovar a alegação?

Um ensaio clínico bem-feito que responda diretamente à afirmação deveria, por exemplo:

  • Selecionar fumantes crônicos com queixa de excesso de catarro (definir critérios objetivos).
  • Usar preparado padronizado (chá ou extrato com quantificação de compostos ativos), dose e regime definidos.
  • Medir desfechos objetivos: volume de escarro coletado, frequência de tosse validada, testes de função pulmonar, biomarcadores inflamatórios e qualidade de vida respiratória; incluir placebo/randomização e tamanho amostral adequado.

Sugestão
Uma sugestão interessante é montar um resumo comparativo das plantas usadas tradicionalmente como auxiliares respiratórios (como goiabeira, guaco, assa-peixe e hortelã-miúda), mostrando quais têm respaldo clínico e quais permanecem apenas no campo popular. Fica para outro post.

 

 Referências

  1. BNews São Paulo(2025). 4 benefícios do chá de folha de goiabeira que você não conhecia - Acesso em 7 de dezembro de 2025
  2. Combinatorial Chemistry & High Throughput Screening (2024). Psidium guajava: An Insight into Ethnomedicinal Uses, Phytochemistry, and Pharmacology - Acesso em 7 de dezembro de 2025
  3. Saudi Pharmaceutical Journal (2023). The effect of Psidium guajava Leaves' extract for mild and asymptomatic corona virus Disease-19 - Acesso em 7 de dezembro de 2025
  4. UOL (2023). Chá de goiaba: saiba os maiores benefícios e como preparar esse chá desintoxicante - Acesso em 7 de dezembro de 2025
  5. Veterinary Medicine International (2021). The Restorative Effect of Red Guava (Psidium guajava) Fruit Extract on Pulmonary Tissue of Rats (Rattus norvegicus) Exposed to Cigarette Smoke - Acesso em 7 de dezembro de 2025
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  8. Aging Clinical and Experimental Research (Aging Clin Exp Res, 2018). Effects of Psidium guajava leaf extract in Japanese subjects with knee pain: a randomized, double-blind, placebo-controlled, parallel pilot study - Acesso em 7 de dezembro de 2025
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