Ruibarbo

Nome científico: 
Rheum palmatum L.
Família: 
Polygonaceae
Sinonímia científica: 
Rheum qinlingense Y.K. Yang, J.K. Wu & D.K. Zhang
Partes usadas: 
Rizoma.
Constituintes (princípios ativos, nutrientes, etc.): 
Taninos gálicos e catéquicos, ácidos orgânicos, flavonoides, ácido oxálico.
Propriedade terapêutica: 
Aperiente, anti-inflamatório, laxante.
Indicação terapêutica: 
Gengivite, estomatite, constipação (prisão de ventre), anorexia, infecção do aparelho urinário, faringite, diarreia.

Nome em outros idiomas

  • Inglês: Chinese rhubarb, Turkey rhubarb, China rhubarb, red ornamental rhubarb
  • Alemão: Medizinalrhabarber, Chinesischer Rhabarber
  • Francês: rhubarbe palmée
  • Espanhol: ruibarbo de Levante

Origem
São originárias da Ásia Central e Oriental, especialmente da China e Tibet. 

Descrição
Planta perene, pode alcançar altura de 2 m. Caracterizada por apresentar um caule grosso, folhas grandes (30 - 40 cm de comprimento) dispostas em grupos basales, cordadas e palmadamente bilobulares.

As flores têm tonalidades que variam entre o vermelho amarelado e o verde-esbranquiçado, agrupadas ao tamanho de um talo alto e aparecem durante o verão.

Crescem em terrenos úmidos em alturas que variam de 3.000 a 4.000 metros. É cultivada atualmente na Europa e Estados Unidos, inclusive em territórios planos, para fim medicinal e ornamental, embora as espécies provenientes da China sejam as melhores do ponto de vista terapêutico.

Parte utilizada
Rizoma. Normalmente cortam-se em rodelas ou tiras longitudinais, para facilitar sua posterior dessecação. Costuma-se também descascá-la para aproveitar o osúber (tecido secundário externo presente em talos e raízes de muitos vegetais).

Vários pesquisadores chegaram à conclusão de que a raiz medicinal seria obtida de diversas variedades de ruibarbo e não de uma única espécie. A padronização das doses e sua exata medição se constituem em processos dificultosos.

História
O ruibarbo foi uma planta muito utilizada na Antiguidade no continente asiático, sendo descrita no herbário chinês Pen-King no ano de 2.700 a.C., onde era conhecida com o nome de Ta-Huang ("gran amarilla"). Dioscórides a chamou derheon de onde se originou a atual denominacão. Foi descoberta e trasladada pelo navegante Marco Polo no final do século XIII, que assinalou as províncias chineses de Kiangsu e Suchou como os locais de origem desta planta, já que a procedência original sempre foi uma incógnita.

Posteriormente se introduziu através da Ásia Menor nos jardins europeus até o ano de 1763, extendendo-se massivamente através de seu uso popular em todo o continente. Não obstante, esta espécie não se reproduzia corretamente nos jardins europeus o que induziu a pensar que o clima e o solo eram fundamentais para obter um bom produto medicinal. Foi assim que nesses jardins acabavam cultivando uma variedade similar que crescia nas montanhas do que hoje se conhece como Bulgária, denominando-se ruibarbo inglês ou rapôntico, que era de menor qualidade e eficácia que o original.

Composição química
Derivados hidroxi-antracênicos (3-12%): presentes nos rizomas sob a forma de glucósidos antraquinônicos (60-80%): emodina, aloe-emodina, raponticina, crisofanol, reina e fisciona. Os derivados hidroxi-antracênicos dos exemplares procedentes da China apresentam uma concentração de 3-6%, e entre 2-3% nos de procedência européia. Também foram detectados glucósidos diantrônicos (10-25%) derivados de reina (senósidos C e D ) e heterodiantronas (palmidinas A, B e C, senidina C, reidinas B e C ). Os glucósidos diantrônicos são abundantes na droga fresca.

Taninos gálicos e catéquicos (5-10%): presentes nos rizomas: glucogalina, ácidos gálicos livres, catequina, epicatequina, ratanina e lindleina.

Ácidos orgânicos: compostos por ácidos cinâmico, fenilpropiônico, ferúlico, quínico, cafeico e crisofânico.

Flavonoides: rutina (1,3%), reidinas A, B e C, catequina.

Outros: ácido oxálico (folhas e em menor medida no rizoma) entre 5 e 15%, princípio amargo, materiais corantes (aloesona), pectinas, almidón (16%), resinas, vestígios de óleo essencial, enzimas (oxidasas e antraglucosidasas), mucílagos, glucósidos de estilbeno (rapontina, rapontigenina), beta-sitosterol e compostos fenólicos.

Ações farmacológicas
Os glucósidos antraquinônicos exercem um efeito laxante suave quando se emprega o rizoma seco. O mesmo costuma-se administrar em forma de extrato em doses que oscilam entre 2 e 5 g/dia. Paradoxalmente, em doses pequenas (0,3 g/dia) exerce um efeito antidiarreico e digestivo (por ação predominante dos taninos). Inclusive essas doses apresentam uma ação que estimula o apetite devido ao sabor amargo.

O contido em antraquinonas livres seria responsável pelos efeitos secundários observados durante seu emprego como laxante, em especial os referidos a irritação do trato intestinal, quando são empregadas cápsulas ou comprimidos feitos em base a extratos totais. Continuando com as antraquinonas, são reportados alguns trabalhos que evidenciam eficaz atividade contra o virus do herpes simples. Por seu lado, a reina tem mostrado atividade antibacteriana frente a anaeróbios.

Sobre a atividade digestiva, e em especial os casos de meteorismo, foi analisado o extrato de ruibarbo junto com alcachofra e yerbabuena (todos em partes iguais) sobre 57 pacientes que apresentavam este sintoma, observando-se 88% de efetividade ao fim de uma semana de tratamento.

O extrato cru da droga e em especial o acetônico tem demonstrado um efeito inibidor sobre a atividade da enzima tirosinasa mediante um mecanismo competitivo, no qual conduz a uma menor síntese de melanina.

Estudo duplo cego (um método estatístico) foi realizado por médicos da Universidade de Shanghai em 140 mulheres grávidas com risco de hipertensão arterial durante a 28ª semana de gestação, tratadas entre 9-10 semanas com extratos de ruibarbo em baixas doses (0,75 g/dia), em comparação com 125 casos similares a quem se administrou placebo. O grupo tratado com ruibarbo mostrou baixa significativa nos níveis de antitrombina III, fibronectina e PAI (plasminogen activator inhibiter).

Assim mesmo verificou-se hipertensão arterial em 5,7% das pacientes tratadas com ruibarbo contra 20,8% do grupo controle. O mecanismo de inibição da atividade PAI reduz a atividade da fibronectina e diminui a possibilidade de um eventual dano endotelial, contribuindo assim a reduzir o risco de hipertensão arterial nestas pacientes.

Por último o extrato seco, iodado e purificado de ruibarbo, se preescreve farmaceuticamente associado ao ácido salicílico em casos de gengivite e estomatite. Extratos de ruibarbo estão autorizados nos EUA como promovedor de sabor ou aperitivo amargo dentro da categoria de suplemento dietário. O Conselho da Europa tem catalogado como recurso alimentício ou promovedor natural do sabor, na categoria N2, que implica limitações de seus princípios ativos no produto final. Assim mesmo figura em várias farmacopeias como as da Alemanha, Austrália, Brasil, China, Egito, Europa, França, Grécia, Holanda, Hungria, Inglaterra, Itália, Portugal, Rep. Checa, Romania, Rússia e Suíça.

 Efeitos adversos e/ou tóxicos
Os mesmos estão relacionados ao contido em antraquinonas livres do rizoma e se apresentam sob a forma de espasmos e dores de cólicas no trato intestinal, em especial a ingestão durante períodos prolongados gerando fenômenos de tolerância. Os electrolitos podem se alterar produzindo hiposodiemia, hipopotasemia e hipocalcemia, que em casos graves conduzem a hiperaldosteronismo secundário, arritmia cardíaca e osteoporose respectivamente. Assim mesmo, foi detectado um caso de reação anafilática consecutiva à ingestão de ruibarbo.

A possibilidade de que as antraquinonas podem gerar carcinoma colorrectal através de mecanismos mutagênicos é discutível, já que foi reportado um só caso fatal (leiomiosarcoma de intestino delgado) em uma mulher de 18 anos de idade que durante 5 anos havia consumido diariamente laxantes contendo dantronas. De modo geral, estudos em roedores evidenciaram um potencial genotoxicidade em alguns compostos antraquinônicos aglicósidos.

Por outro lado, estudos colonoscópicos realizados em 1095 pacientes que consumiam cronicamente laxantes antraquinônicos determinaram na grande maioria deles uma alteração da pigmentação da mucosa denominada Pseudomelanosis coli, a qual é indicadora de abuso de laxantes deste tipo.

 Contraindicações
Não consumir as folhas em casos de litíase renal ou urinária e gota (pela presença de oxalatos). Não administrar a crianças nem durante a gravidez ou lactância. Não administrar em casos de hemorroidas.

Interações medicamentosas
Seu consumo pode interferir na absorção de ferro e outros minerais.

Usos etnomedicinais - formas galênicas
Entre os usos mais populares do ruibarbo cita-se o emprego em casos de constipação (prisão de ventre) ocasional, anorexia, infecções do aparelho urinário, gengivites e faringites (como colutório).

Antidiarreico. A tintura de ruibarbo é empregada como antidiarreico a doses de 5-10 gotas por vez. Em doses de 1 ml tem um efeito laxante suave e com 2,5 ml um efeito purgante mais potente, que pode acompanhar fortes dores cólicas. Nestes casos se neutraliza com menta ou hinojo (uma planta aromática).

Furúnculo, diarréia, constipação. Em casos de diarréia se emprega a decocção (0,5 g de raiz por dose) e 3 g por dose, em casos de constipação. Popularmente é empregada na China a decocção (muito concentrada) para aplicar externamente em casos de furúnculos e enfermidades supurativas da pele. Curiosamente nesse país é praticamente utilizado o ruibarbo como anti-inflamatório e não como laxante.

Dispepsia. A tintura (1:5 en álcool de 96º) se prescreve a razão de 2 ml por dose en casos de dispepsia, e de 1-2,5 ml por dose em constipação. O extracto fluido destanizado(1 g = 47 gotas) se dosa a razão de 0,2 a 0,5 g/doses como laxante e 1.4 g/dose como purgante.

Curiosidade
O intenso comércio do ruibarbo na Europa durante o século XVIII fez com que vários estados protegessem suas fronteiras do tráfico ilegal.

Em 1731 foi criada na fronteira da Rússia com a Mongólia a chamada Comissão do Ruibarbo cuja finalidade era importar para os soviéticos o ruibarbo de melhor qualidade dos mercadores mongóis. Para tanto fixava-se um preço único que teriam que renegociar anualmente e se implementavam controles de qualidade que permitiam devolver produtos duvidosos ou sem qualidade. O ruibarbo, que superava esses controles, era renegociado na Europa a preços muito elevados e sem possibilidade de pechincha.

Em contrapartida, as companhias britânicas assentadas em colonias asiáticas obtinham raizes de baixa qualidade que logo vendiam em leilões em Londres, a preços desregulados. Estas foram, em síntese, as duas fontes mais importantes de ruibarbo entre os séculos XVII e XIX.

Variedades
Rheum officinale Baill. (R. raphonticum L.), (R. tanguticum L.) é outra espécie asiática que provê os princípios ativos utilizados na medicina, junto a R. palmatum. Foi introduzida mais tarde que esta no continente europeu (1867) pelo botânico francês H. Baillon. Caracteriza-se por apresentar um porte um pouco maior que R. palmatum, podendo alcançar 3 m de altura, com flores esbranquiçadas e folhas de até 1 m de largura. Seus princípios ativos são praticamente idênticos à variedade anterior.

Rheum rhabarbarum L. (R. undulatum L.) 
Trata-se de uma espécie cultivada em jardim da qual se aproveitam os pecíolos (0,3% de ácido oxálico e taninos) que são comestíveis. As nervaduras e o limbo das folhas apresentam heterósidos antraquinônicos os quais são tóxicos, sobretudo quando se confundem com espinaca (planta de horta, comestível) e são ingeridas como tal.

 Colaboração

  • Dilvo Bigliazzi Júnior, Médico em Canavieiras (BA), julho de 2005. O texto original foi extraído do site da Associacion Argentina de Fitomedicina. 
  • Tradução: Carla Queiroz Becerra, estagiária, Centro de Informática na Agricultura - USP, Piracicaba (SP).

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GOOGLE IMAGES de Rheum palmatum - Acesso em 6 de outubro de 2019

 

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